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  • Aline Paranhos

No primeiro minuto de vida (ou relato de nascimento da Melissa)



Quando descobri a gravidez da Melissa, nossa família tinha passado por um grande luto havia dois meses. A gestação foi, portanto - embora não planejada - uma grande benção. Um bálsamo para aqueles dias.


Já nas primeiras semanas, ainda durante o processo de reconhecimento da gestação, me deparei com o péssimo sistema obstétrico brasileiro: Eduardo (meu namorado na época - hoje, marido) e eu fomos assaltados caminhando na rua à noite. Com o susto, tive um sangramento importante. Numa das idas ao plantão de um hospital, fui fazer um ultrassom e o médico que me examinou, bem frio, me disse o seguinte: “sua gestação não evoluiu conforme o esperado, mas fique tranquila que você vai expelir naturalmente”. Aos prantos, sangrando e sem receber uma palavra de consolo sequer, me levantei da maca e me vesti sozinha. Fique tranquila? Aquele bebê era como nosso arco-íris! Saí da sala arrasada.


O Du e meu irmão estavam esperando do lado de fora e choraram abraçados comigo. Voltei para o retorno do atendimento com um obstetra, que me acalmou: “fique tranquila, Aline. Eu já vi isso acontecer antes. É normal não detectar os batimentos cardíacos tão no início. Vamos entrar com medicação, repouso e daqui dez dias você refaz o ultrassom”.


Precisei ficar internada por uma noite e todas, absolutamente todas as pessoas que entravam naquele quarto me diziam “ah, você é a do aborto, né?”, ao que eu, chorosa, respondia: “não, eu estou grávida”. Sério. Eu ouvi isso de médicas, das copeiras e de cada enfermeira que passou ali. Fiquei na ala da maternidade. Ouvia os bebês chorando e, sozinha no quarto, falava com a barriga: "bebê, se você quiser nascer, pode chorar bastante se precisar. Eu vou estar aqui para cuidar de você".


Passados os tais dez dias, período que eu vivi sem saber se me adaptava à gestação recém descoberta ou se me preparava para o luto de um aborto, fiz um novo ultrassom, com outro médico, que entusiasmado (e sem saber da história) me disse: “olha, que legal, já dá para ver o coraçãozinho”! Chorei. Muito. Um misto de emoções. Algo entre “que lindeza que você está aqui, bebê” e “mano do céu, ferrou, tô grávida mesmo”, afinal, eu tinha passado aqueles dias sem saber se eu estava grávida ou se eu era aquela “do aborto”. Fiquei dividida entre os pensamentos de prós e contras dentro de cada cenário possível.

Fato é que a emoção tomou conta, saí da sala chorando de alegria e nervosismo e encontrei o Eduardo que, quando me viu chorando, pensou que nossa bebê tinha morrido. Quando consegui fôlego, anunciei: “deu para ver o coraçãozinho”. Ali choramos juntos e acho que foi de alívio.


A gestação evoluiu sem maiores problemas e com o acompanhamento de um médico que havia feito as 3 cesáreas da minha irmã e a única da minha cunhada. Seria o quinto neto de Dona Elba vindo pelas mãos daquele médico. Eu não pensei em outro. Eu confiava nele.


Eu tinha tido uma trombose anos antes e, segundo ele, uma cesárea seria mais controlada para mim. Foi sob essa desculpa que ele conseguiu ser evasivo às minhas perguntas sobre parto.


Eu disse que queria pelo menos esperar entrar em trabalho de parto, mas, mesmo assim, numa consulta de rotina ele anunciou que tinha agendado a cesárea para as 38 semanas. “Olha, eu fiz uma coisa que não sei se você vai gostar muito, mas deixei sua cesárea agendada para 29/06, porque eu vou sair de férias”, foram as palavras dele. Eu resisti, disse que não decidiria naquele momento e fui pra casa na maior dúvida.


Às 37 semanas e 2 dias (acho), acordei estranha, fui tossir, fiz xixi na roupa (quem nunca, grávidas?), me senti nauseada e confusa . Como eu tinha consulta de rotina, lá fui eu, acompanhada pela minha mãe. O tal doutor tinha ultrassom na sala, me examinou, disse que eu estava em trabalho de parto porque estava - segundo ele - tendo contrações (que eu não sentia) e me encaminhou para o hospital. Acreditei.


Chegando lá naquela maternidade queridinha de São Paulo (ô, inocência), me fizeram um cardiotoco e vi quando a enfermeira, aparentemente preocupada, chamou a médica do plantão de canto. Eu perguntei se estava tudo bem e ela se limitou a acenar com a cabeça. Cerca de 16h (acho), fizeram minha internação e disseram que logo o doutor chegaria para a minha cirurgia. Eu nunca soube o que aquela conversa de canto entre enfermeira e médica significou.

Me despedi da minha mãe, fui para uma sala gelada, me deram removedor de esmaltes (porque eu estava com um lindo esmalte vermelho), perguntaram se eu tinha me depilado, conferiram a depilação e eu fiquei ali sozinha.


Não lembro de muitos detalhes. Mas lembro da sala gelada, de não ter podido comer nada, de estar sozinha. Lembro do quanto tudo era branco demais, frio demais e de uma mulher deitada numa maca próxima desistindo do parto normal: “doutor, a moça do leito X quer a cesárea. Ela desistiu de esperar”. Não tinha ninguém com ela também.


Lembro de ter sentido umas duas contrações. Umas dores bem intensas no pé da barriga. Duas vezes. Três, no máximo. Isso deve ter começado umas 21h.


Tudo parecia um grande mistério. Eu não decidia nada, não me informavam nada, eu não sabia onde estavam minha mãe, meu marido... eu não sabia nada. Por volta das 23h, fui avisada de que o médico havia chegado. Perguntei pelo meu marido. Reforcei que meu marido queria estar comigo. Alguém me avisou que ele só ia entrar quando eu estivesse anestesiada.


Eu continuei sozinha. Entrei naquele centro cirúrgico inóspito, fui colocada em posição para receber anestesia, tentei pensar numa paisagem bonita e lembro de ter repetido que meu marido queria estar ali. Finalmente alguém me disse que ele estava lá fora, esperando para entrar.


Me deitaram na maca, posicionaram meus braços, eu vi o Eduardo entrar e se sentar do lado da minha cabeça. Eu estava apavorada, mas estava feliz. Eu não tinha noção de que nascimento não precisava ser tão solitário.


Solidão. Eu esqueci de muitos momentos, muitos detalhes desse processo. Mas agora, passados sete anos, quando tento remontar as peças daquele dia eu revivo um profundo sentimento de solidão.


Voltando ao centro cirúrgico: os médicos estavam conversando animados sobre uma viagem de fim de semana. Confesso que a animação da fala deles me deixou tranquila. Não parecia que eles estavam tensos ou concentrados, o que me fez imaginar que o procedimento deveria ser bem simples.


Em algum momento a enfermeira me disse que eu sentiria uma pressão, tentei me conectar com o momento porque já tinha ouvido falar que essa pressão era quando a bebê seria retirada. Nessa hora, percebi uma forte luz na janela lateral da sala e vi, surpresa, que minha família estava ali, assistindo ao nascimento! Era como uma persiana que se abria para que as pessoas pudessem assistir atrás duma janela. Eu não fui sequer informada ou consultada se eu queria que alguém assistisse! Talvez eu quisesse, mas eu gostaria de ter podido escolher ou ao menos saber que aquilo aconteceria para não ser distraída daquela forma. Feliz e confusa, tudo junto. Nem para isso eu fui preparada e com certeza olhar de supetão para as tantas pessoas na janela me vendo ser operada me afastou da conexão com o nascimento da minha filha.


Senti alguém chacoalhar meu corpo e às 00:33 do dia 25/06/2013 ela nasceu. O médico a levantou do outro lado do campo e eu fui invadida por uma onda de felicidade extrema quando olhei para ela. “Que linda! Como ela é pequenininha!” Foram minhas primeiras palavras para minha filha, que teve o cordão umbilical cortado rapidamente e foi levada para uma infinidade de procedimentos no primeiro minuto de vida. No primeiro-minuto-de vida.


Melissa recebeu um lacinho na cabeça e foi exibida para minha família, chorando. Só depois, foi trazida para perto do meu rosto. Encostaram o rostinho dela no meu e foi a coisa mais maravilhosa que a minha pele já tocou. Ela parou de chorar na hora. Eu não sabia se podia mexer os braços. Eu não abracei a minha filha ao nascer. Ela foi separada de mim e nos informaram que ela seria trazida de volta três horas depois que passasse o efeito da anestesia (!!!).


A tal cortina fechou, meu marido foi retirado da sala e eu fiquei lá sozinha. E minha filha também ficou sozinha.


Depois das suturas todas, fui levada para uma sala de repouso e eu lembro de estar tão infinitamente apaixonada por ela que eu não conseguia parar de sorrir. Minha mandíbula doía de tanto sorrir. Que plenitude eu teria sentido se essa felicidade toda tivesse sido acompanhada de um parto respeitoso, onde eu tivesse me sentido acolhida, onde minha filha tivesse sido acolhida. Ela podia estar ali perto de mim. Mas era tudo muito confuso. Alegria e solidão de mãos dadas.


Cerca de 4 horas depois, já no quarto, Eduardo e eu ainda acordados, ouvimos o barulho de um carrinho sendo arrastado no corredor. “Será que é ela?” nos perguntamos ansiosos. Sim! Uma enfermeira abriu a porta e dentro do carrinho que ela empurrava estava nossa Melissa. Ali peguei minha filha nos braços pela primeira vez e nem sei dizer o tanto de amor que senti.


Foi uma confusão imensa para mim nos primeiros dias de pós-parto. Sei que é normal, mas sei também que isso foi agravado pela maneira como o nascimento dela foi conduzido. O fato de não ter tido minhas vontades validadas, não ter podido fazer escolhas informadas, de não ter podido tomar as decisões, de não saber o que ia acontecer, como ia acontecer, de ter ficado sozinha deixou marcas sutis na minha relação com a experiência de gestação (considerando o episódio de sangramento lá do começo) e nascimento. Eu me sentia culpada sei lá do que, incapaz, dolorida, limitada. Chorava de tristeza e alegria, cansaço, dúvidas. Foram muitas sensações ambíguas simultaneamente. Eu fui sendo levada sem saber bem para onde, sem entender nada.


Eu sei que essa tristeza e um certo desequilíbrio emocional no pós parto vem para todas nós, umas em maior, outras em menor grau. Mas sei também que quanto mais ouvida uma mulher é, quanto mais protagonista do processo ela é, mais claras são todas essas questões e mais fácil passar por elas.


Não tive depressão pós-parto, felizmente. Me recuperei relativamente rápido da cirurgia. Estabeleci um vínculo forte com minha bebê, mas não considero, de forma alguma que me tenhamos tido, minha filha e eu, uma experiência positiva no nascimento dela. Eu também não consegui amamentar. Não me senti capaz nem fui apoiada para isso e não tenho dúvidas de que todo os entraves do caminho reverberaram negativamente no nosso processo de aleitamento.


O sistema obstétrico nos induz a aceitar intervenções sem nos dar as informações básicas necessárias e nos dá a falsa impressão de termos feito "escolhas". No meu caso, senti ainda a culpa por "já" ter 32 anos no nascimento dela e, mesmo assim, não saber nada sobre nascimento. Mas era meu primeiro bebê e, não, eu não sabia de nada.


Com todas as informações que tenho hoje, já me desculpei com ela dezenas de vezes, inclusive aos prantos enquanto escrevo esse relato, por não ter proporcionado a ela a recepção que ela merecia nesse mundo.


Hoje, sete anos depois, me encorajei a escrever esse relato e tentar lembrar o máximo de detalhes possíveis. Com essa escrita que é, acima de tudo, uma auto-escuta, me organizo, reconheço onde me faltou acolhimento, me acolho, me perdoo.


Claro que eu fiz meu melhor. Dentro das informações que eu tinha, da cultura da minha casa na época, da assistência que eu encontrei no caminho, fiz meu melhor. Dei e dou a ela muito amor e cuidado, mas, aaaah... como eu queria voltar no tempo e ter abraçado a minha filha no instante em que ela nasceu. Desde o primeiro instante. No primeiro-minuto-de vida.


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Para saber mais sobre a importância de recepcionar os bebês de maneira respeitosa, recomendo fortemente a leitura do livro Nascer Sorrindo, de Frédérick Leboyer

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