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  • Aline Paranhos

Relato de Aleitamento da Melissa

Quando a Melissa nasceu eu “já” tinha 32 anos. Bom, esperasse que uma mulher nessa idade já saiba de muitas coisas, né? Inclusive sobre como amamentar um bebê.


Pois bem, eu não sabia. Eu via minha irmã e cunhada amamentando e era muito simples: punha o bebê no peito e ele mamava.


Vocês já sabem que ela nasceu de uma cesárea desnecessária, então fica fácil imaginar que se eu não me preparei para o parto, para o aleitamento menos ainda.


Fato é que ela nasceu às 37 semanas de gestação e não demonstrava sinais de prontidão para mamar. No hospital, aquele famosão de São Paulo com nome de Santa, me disseram que se ela não mamasse ia apresentar hipoglicemia. E ela não mamava. Só dormia.


Claro que cedi à pressão da enfermagem para dar fórmula. Claro que aceitei também o bico de silicone que a enfermeira me vendeu dentro do hospital para tentar fazer com que ela “pegasse mais fácil o peito”.


Minha mãe levou uma chupeta para a maternidade, que eu dei logo de cara, porque obviamente ninguém (obstetra, pediatras, enfermeiras) me disse que isso poderia fazer com que ela se desinteressasse pelo peito, assim como seguramente nunca ninguém contou isso para minha mãe.


Uma pediatra, cheia de má vontade, me falou que eu deveria dar fórmula em casa num copinho de café, daqueles de plástico. Me deu uma receita com três nomes diferentes e me orientou a não usar mamadeira, porque poderia ser que minha filha fizesse confusão de bicos. Mas não se enganem. Foi uma fala assim... bem displicente, desacompanhada de qualquer instrução sobre como alimentar minha filha com o tal do copinho, sobre a pega correta, importância do pele a pele, nada disso.


Na volta da maternidade já passei na farmácia e comprei fórmula. Eu juro que achava que dali alguns dias meu peito iria produzir mais leite e, aí sim, minha filha mamaria com mais facilidade. Óbvio que isso não aconteceu.


Era uma luta. Eu punha ela no peito e ela adormecia; tirava do peito e do colo, ela gritava. Eu deduzia que ela estava com fome, tentava o copinho de café que a médica falou, não sabia técnica alguma, ficava com medo de engasgar, do copinho rachar e beliscar aquela boquinha miúda (que tinha o melhor cheiro do Universo inteiro), dava uma mamadeira e ela dormia por duas, três horas. Tá vendo? Era fome...

Não, não era fome. Hoje eu sei. Ela queria colo porque era bebê. Os bebês humanos precisam de colo, né? Já viram o bebê da girafa? Nasceu, já anda. Se nossos bebês não precisassem de colo, seria assim também.


Na primeira consulta, relatei para o pediatra: “doutor, ela não mama.” “Como assim, não mama? Todo bebê mama, só a sua que não?”. Super grosso. Eu ali, perdida, com a bebê recém-nascida nos braços. Zero tentativa dele de ver a mamada, zero orientação. Nada. Mandou aumentar a quantidade de fórmula.


E eu seguia na batalha. Uns 7 dias depois do nascimento, era tentar colocá-la no peito e ela gritava. Eu, claro, chorava de frustração e cedia à mamadeira. Chupeta, então, nem se fala. Era o tempo todo.


Bem, ainda nesses intensos primeiros dias uma mulher da família foi me visitar. Assistiu minha batalha para amamentar e foi logo dizendo: “você não tem leite. Pode dar mamadeira para ela”. Deusa, por que as pessoas fazem isso? Como me senti incapaz naquele dia. Parece que de fato internalizei o que ela disse e daí pra frente, foi só ladeira abaixo.


Uma outra parente lançou: “seu bico é pequeno”. Mais um defeito, mais muito choro meu e mais uma mentira internalizada.


Meu obstetra ouviu minha queixa sobre não conseguiu amamentar, me receitou um psicotrópico, que supostamente tinha como efeito colateral a produção de leite, e um certo spray nasal, que também deveria cumprir essa função de produção. Me deu umas dicas de massagem e falou que não tinha problema não amamentar: “os pediatras só pensam no bebê”, ele disse. Quando na próxima consulta eu relatei que ainda não conseguia ele disse: “Olha, o bebê precisa de amor. Não está conseguindo amamentar? Cada mamadeira que você fizer, faz com muito amor”. Nisso ele acertou em cheio!


Finalmente encontrei um pediatra que me ouvia. Não me orientou, não olhou a mamada, mas disse que se eu desse 30 ml por dia do meu leite para a minha filha ele ficaria satisfeito. Ah, que ótimo! Lá ia eu para aquela bomba manual que parece um desentupidor, machucar meu seio e tirar cerca de 10, 20 ml a cada extração. Que tortura, que frustração! À essa altura, com uns 20 dias de nascida aproximadamente, ela até mamava no peito vez em quando, por uns 3 a 5 minutos antes de dormir. Será que mamou 30ml? Será que eu posso colocar esse tantinho que ordenhei na mamadeira? E tome mamadeira para garantir que está alimentada. Eu não confiava no meu corpo, não tinha apoio algum para amamentar. Ninguém validava meu desejo profundo de nutrir minha filha. Para a minha rede de apoio e para os médicos, se ela não estava chorando, estava tudo bem. Mas eu chorava. Eu, na verdade, sangrava por dentro.


Vocês não imaginam o quanto eu chorei. A cada tentativa de trazê-la para o peito eu me sentia rejeitada, errada, incompleta. Tudo isso no meio do turbilhão de emoções que permeiam o puerpério.


Pensei em procurar um banco de leite, que li em algum lugar que podia ajudar. Tive medo de não conseguir mesmo assim e ficar ainda pior com tudo. Vi que o bico de silicone não era bom, tirei. Melhorou, não resolveu. Vi que dava para usar sonda e tentar uma relactação, me enchi de esperança, comprei dezenas de sondinhas e tentei do meu jeito, já que eu nem imaginava que consultora em aleitamento existia. Não consegui mesmo assim. Chorei mais.


Com um pouco mais de dois meses, realmente fiquei sem forças. Parei de lutar, mas não de chorar. Enchia os olhos de lágrimas toda vez que via uma mulher amamentando. Chorava e, por dentro, rezava: “Deus, não me deixa invejar as outras mulheres.”


Minha filha cresceu saudável, sempre foi nota 10 nas benditas curvas de crescimento e ganho de peso. Mas só eu sei o peso que carregava a cada consulta, para explicar que ela não mamava no peito (claro que o pediatra esquecia da informação, mas eu...nunca). Só eu sei o medo que dava cada vez que lia algum artigo que relacionava aleitamento materno à inteligência, à imunidade, ao bom funcionamento do intestino, ao desenvolvimento dos ossos da face e outras coisas mais. Só eu sei o quanto era difícil, nos eventos sociais, sacar mamadeira, água mineral, leite em pó e dar para minha filha tão pequenininha. Só eu sei que frustração é essa. Só eu sei.


Só eu e talvez você, que me lê, se você também é uma mãe que sonhou amamentar e não conseguiu.


Lembro que num dia, quando ela já estava com um ano, no banho, me encorajei a apertar meu peito. Adivinhem? Saiu leite. SAIU LEITE! Sim, eu tinha leite. Sempre tive. O que não tive foi apoio e informação da comunidade médica. Sofri, como tantas de nós, os abusos da indústria do leite artificial. Os médicos, em sua esmagadora maioria, não têm interesse em nos ensinar. A indústria não tem interesse em que amamentemos. Lembremos sempre: amamentar é de graça e, portanto, não interessa ao capitalismo. Amamentar é um ato político.


Por não ter amamentado, sonhei muito em ser mãe novamente. Eu tinha essa pendência emocional. Eu sonhava muito em amamentar.


Fui mãe pela segunda vez porque a Melissa não mamou quando bebê.


Grávida da Mirela, estudei muito sobre o impacto da via de parto sobre o aleitamento, sobre confusão de bicos, sobre exterogestação etc. Mirela nasceu de parto natural e mama até hoje (com 3 anos e 5 meses).


Tive parto natural porque a Melissa não mamou quando bebê.


Nascida a Mirela e retirado todo esse véu que me encobriu quando da gestação e puerpério da Melissa, decidi me tornar doula. Outras mulheres tinham que saber disso tudo que me foi omitido.


Me tornei doula porque a Melissa não mamou quando bebê.


Mais acima eu escrevi que a Melissa não mamou quando bebê, né? Porque desde que a Mirela era bem bebezinha, uso LEITE MATERNO no mingau da Melissa muitas vezes. Assim ela "mama". Assim eu me curo.



A foto, pasmem, é de uma propaganda de Leite Moça de 1949. Olha a indústria aí enganando a gente.

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